"Casei na UTI um dia antes de uma cirurgia de risco!"

Jhullimayre estava zonza de dor quando seu amor apareceu com o pastor e duas alianças

Reportagem: Daniel Lopes

Nosso pastor (de preto) celebrou o casório. Cleyton e eu | <i>Crédito: Arquivo Pessoal
Nosso pastor (de preto) celebrou o casório. Cleyton e eu | Crédito: Arquivo Pessoal
Estava tudo pronto: igreja reservada, bufê e decoração pagos, vestido alugado. Eu e o Cleyton, meu noivo, mal podíamos acreditar: tínhamos gastado R$ 16 mil para que tudo acontecesse do nosso jeitinho. Eis que, dez dias antes da cerimônia, em junho deste ano, nossa vida virou de cabeça pra baixo. Eu estava voltando do meu curso de costura quando, do nada, comecei a sentir uma dor de cabeça tão forte que não conseguia nem abrir os olhos. Cleyton me levou ao posto de saúde. Lá, me receitaram um analgésico que não adiantou nada. Só fui ser examinada direito na manhã seguinte, no hospital. O diagnóstico fez o chão sumir sob nossos pés: meu cérebro havia sangrado e eu precisava ser internada urgentemente. 

A dez dias do casório tive um aneurisma cerebral! 

Dores de cabeça como aquela não eram novidade pra mim. Já vinha sofrendo com elas havia alguns meses. Como o casamento estava se aproximando, achava que fosse por causa da preocupação com a cerimônia e nem dava atenção. 

Só que, naquele dia, meu crânio martelou como nunca! O Cleyton ficou muito preocupado. Afinal, estamos juntos há oito anos – amigos em comum nos apresentaram e nos apaixonamos à primeira vista. Um amor lindo, que já nos deu até uma filha, a Júlia, de 6 anos. 

Os exames que detectaram o sangramento fizeram os médicos suspeitarem de AVC. Preocupados, me transferiram para um hospital com mais estrutura para investigar meu caso. 

Volta e meia eu pensava: “Meu Deus! E o casamento?” Mas logo a dor (fortíssima!) falava mais alto, me fazendo perder a noção do que acontecia ao meu redor. Acho que faltavam três dias para a cerimônia quando o diagnóstico final chegou: eu não havia tido um AVC, mas sim um aneurisma cerebral!

Eu não sabia, mas corria sério risco de morrer! 

Aneurisma é quando um vaso sanguíneo incha – nem sempre ele se rompe, mas no meu se rompeu. E isso é ruim. Muito ruim! Minha única chance era operar para desobstruir a veia estourada e limpar o sangue que tinha saído dela. 

Eu não sabia na época, porque o hospital e o Cleyton me protegeram, mas meu caso era grave. O médico alertou o meu amor que eu poderia não resistir à cirurgia – ou voltar da intervenção com sérias sequelas, como perda de alguns movimentos do rosto. Pobre Cleyton, ficou apavorado! 

Como já disse, minha noção de tempo estava embaralhada. Tenho vagas lembranças do que acontecia. Mas me recordo do dia em que as enfermeiras me acordaram, me deram banho e espirraram perfume em mim. 

“Você vai se casar hoje”, disseram, enquanto me maquiavam e arrumavam meu cabelo num penteado simples e colocavam uma flor nele. Por fim, elas me deram um buquê lindo. 

Como a dor de cabeça e os medicamentos deixavam o meu raciocínio lento, não entendi o que estava acontecendo. Mas fiquei ansiosa, claro! Ainda mais quando vi vários funcionários da UTI se juntando perto da minha maca. 

De repente, o pastor da nossa igreja entrou e disse: “O noivo está vindo”. Nessa hora, o Cleyton apareceu na porta carregando nossas alianças. Só aí a ficha caiu. Notei, pelo olhar dele, que não esperava me encontrar toda arrumada. Gritei: “Surpresa!” A surpresa era pra mim, mas não consegui pensar em outra coisa pra dizer. 

Casar na UTI nos deu uma esperança especial! 

Meu amor se emocionou tanto que chorou. E eu, entendendo o que aquilo tudo significava, chorei também. O pastor deu início à cerimônia e nos casou ali mesmo. Meu marido cochichou no meu ouvido: “Não saiu como esperávamos, né?” Bobinho... Eu estava me sentindo tão feliz naquele momento! 

Sabe, sempre sonhei em oficializar nossa relação. Mas vivíamos adiando... Primeiro para que o Cleyton terminasse a universidade; depois, para construirmos nossa casa. Não, eu jamais havia me imaginado casando numa UTI, às vésperas de uma cirurgia de alto risco. Mas olha que curioso: a cerimônia nos encheu de uma esperança especial, como se tivesse nos blindado de todo mal. 

Fui operada no dia seguinte. Não sei dizer ao certo quanto tempo fiquei no centro cirúrgico, mas sei que foi muito. E sei que Cleyton não arredou pé de lá, perguntando a toda hora se eu ficaria bem ou não. 

Felizmente, tudo deu certo e eu sobrevivi. Acordei no dia seguinte. Que bênção abrir os olhos e estar curada, sem nenhuma sequela! 

Quando voltei para casa, a data do nosso casamento na igreja já tinha passado. Mas, claro, aquilo não importava nada pra mim. Estava debilitada e minha única preocupação era me recuperar ao lado do meu marido e da nossa filhinha. 

Hoje, dois meses depois, não tenho mais dor nenhuma. Estou tão saudável que remarcamos uma data na igreja para repetir nosso casório na presença de amigos e familiares. 

Que bom que os fornecedores que havíamos contratado com os R$ 16 mil toparam transferir tudo para 21 de novembro, dia do meu aniversário! Passará a ser uma data pra lá de especial, pois celebrará meu casamento e também minha vitória sobre a morte! - JHULLIMAYRE D’ÁVILA DE PINHO BARROS AMARAL, 26 anos, dona de casa, Cachoeira Escura, MG

“Não podia arriscar perdê-la sem oficializar nosso amor”

“Quando recebi a notícia de que a Jhulli tinha sofrido um aneurisma, fiquei completamente desnorteado. Cheguei a pensar que ela não fosse resistir e me apavorei. Desisti dos planos de casamento e só pensava em vê-la viva e com saúde. Quando voltava pra casa do hospital, minha fi lha perguntava pela mãe e eu respondia engasgado, com medo de alimentar esperanças falsas. A ideia da cirurgia me deixou tão assustado que resolvi apressar a cerimônia. Não podia deixar que a mulher da minha vida se fosse sem oficializar nossa união. Antes de solicitar permissão ao hospital, tive ajuda de uma enfermeira, a Eliane, que foi pessoalmente conversar com a equipe médica e conseguiu a aprovação de todos para nos casarmos. E, mesmo sendo na UTI, aquele foi o momento mais especial da minha vida. Com a Jhulli curada, respiro aliviado. Mas não mudaria nada do que fi z. Agora é só esperar o casamento oficial!” - CLEYTON GOMES BARROS, 32 anos, engenheiro mecânico, o marido da Jhulli


10/09/2015 - 09:00

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