Casei com o marido da minha melhor amiga

Não nascemos irmãs, como gostaríamos, mas nossos filhos, sim

Reportagem: Ainá Vietro (com colaboração de Luiza Schiff)

Éramos a herança um do outro, deixada pela Tânia. | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Éramos a herança um do outro, deixada pela Tânia. | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Ela ficou duas semanas num hospital. Tânia, minha melhor amiga, havia sofrido um acidente de carro. Durante a internação, ela mostrava certa ansiedade em me dizer algo. Alternando momentos de lucidez e coma, ela dizia: “Preciso muito falar com a Isa, onde ela está?”.
Tânia morava em Manaus com o marido, Robson, e os dois filhos. Eu estava no Rio de Janeiro e nem soubera do acontecido. No dia 9 de dezembro de 1979, recebi um telefonema da irmã dela com a mais triste notícia. Tânia não resistiu ao trauma do acidente e morreu.
Não tenho como descrever a dor que eu senti. Foi o maior choque da minha vida. Perdi uma irmã. O destino tentou nos separar, mas a cumplicidade entre nós duas foi mais forte. Tanto que me casei com Robson, viúvo de Tânia, e me tornei mãe de seus dois filhos.

Queria minimizar a dor do Robson
Eu tinha 12 anos quando conheci a Tânia. Nunca imaginei que nossas vidas se cruzariam dessa forma. Depois do acidente, Robson voltou com os meninos para o Rio de Janeiro, nossa cidade natal. Eu telefonava direto para ter notícias e tentar animá-lo. Tinha muita gratidão por Robson, por ter feito minha amiga tão feliz. Agora, sozinho com um menino de 4 anos e outro de 2, sentia por ele uma imensa compaixão. Queria minimizar sua dor.
Eu tinha um namorado, mas se eu fosse livre me casaria com ele. Ou se preferisse poderia ser governanta da casa. Deixaria meu emprego e cuidaria do Robson Luiz, filho mais velho da Tânia e meu afilhado, e de Luiz Augusto, o caçula.

Éramos amigas de escola
Meu primeiro encontro com a Tânia foi inesquecível. O ano era 1963. Estávamos na fila para o exame médico do colégio, no Rio de Janeiro. Daquele dia em diante, nos tornamos amigas inseparáveis.
Passamos por momentos únicos. Fui com ela ao meu primeiro baile de Carnaval. Ela dançou a valsa em meus 15 anos. Nessa época, combinamos que uma seria madrinha do futuro filho da outra. E assim foi.

Os preparativos do casamento
O tempo passou e a Tânia se entusiasmou com um novo amor. Marcamos um encontro no baile de aniversário do colégio. Fui com Valdir, um namorado, e Tânia nos apresentou Robson.
Passamos a sair juntos: teatro, cinema, barzinhos e até acampamento. O namoro de Tânia e Robson ficou firme. Eles noivaram e logo marcaram o casamento. Acompanhei passo a passo os preparativos. Ajudei a marcar a igreja, o casamento civil e tudo mais.
A cerimônia me levou às lágrimas de tão linda que foi. Eles se mudaram para Pirassununga e, em junho de 1975, nascia meu afilhado. Tânia não havia esquecido a promessa. Fiquei muito feliz com a chegada de Robson Luiz, me sentindo meio tia, meio mãe. Dois anos depois, nasceu o Luiz Augusto.

Tentei apresentar uma amiga minha para ele
Como tinha muito carinho pelas crianças, depois da morte da Tânia passei a visitá-las nos aniversários e no Natal. Sempre conversava com o Robson e aconselhava a reconstruir sua vida, a ter uma esposa e mãe para os meninos. Pensava em qual das minhas amigas seria legal para ele.
Nessa mesma época, queria me separar do meu namorado, com quem já morava junto. Em um dos encontros com o Robson, abri meu coração e ele me disse: “Todos nós que gostamos de você, percebemos que não é feliz com ele.”. Eu adorava conversar com o Robson...

Queríamos cuidar um do outro
No natal de 1982, eu estava separada e o Robson disse que seria muito legal se eu topasse sair com ele e os meninos. Fomos ao Pão de Açúcar, ao Jardim Zoológico, ao parque de diversões; A gente gostava mesmo era de estar juntos. Por isso, passamos a nos falar cada vez mais. No início de 1983, ele me convidou para sair. Só nós dois. Fomos ao um piano-bar. Descobrimos ali que precisávamos cuidar um do outro. Eu me sentia um pouco responsável por ele e ele por mim. Éramos a herança um do outro, 
deixada pela Tânia.

Eu e Tânia tínhamos um juramento
Foi aí que ele perguntou se eu me lembrava do juramento. Que juramento? Ele lembrou que Tânia e eu juramos que, se uma de nós morresse, a outra casaria com o viúvo. Quando tínhamos 15 anos, ela disse: “Para que nenhuma aventureira lance mão dele, do nosso amor, é melhor que uma de nós, a que ficar, tome conta dele, pois vai cuidar bem”.
Um ano depois do nosso primeiro encontro nos casamos. Robson Luiz, com 8 anos, e Luiz Augusto, com 6, entraram na igreja comigo. A família da Tânia compareceu em peso. Meses depois, nasceu nosso primeiro filho, Roberto e dois anos depois, Ricardo. Eu e a Tânia não nascemos irmãs, mas nossos filhos, sim. É lindo vê-los tão unidos.
Robson e eu temos cumprido a promessa de cuidar um do outro há 33 anos. Temos muito zelo, cuidado, carinho, respeito e admiração mútuos. Acho seguro afirmar que Tânia está feliz por nós.

Isa Saraiva Ferreira, 67 anos, aposentada, Florianópolis, SC

DA REDAÇÃO
“Só me casei de novo por ser com ela”
“Sabia que a Tânia e a Isa eram inseparáveis. Isa é madrinha do nosso primeiro filho. Acho que isso nos aproximou depois que fiquei viúvo. Ela era muito ligada às crianças e nos visitava sempre. Depois do acidente, Tânia ficou muito ansiosa para falar com a Isa. Hoje entendo que ela sabia que ia embora e queria que a Isa cuidasse de mim. Se fosse para casar de novo, que fosse com a Isa. Ela conhecia a Tânia e adorava os meninos. Quando começamos a namorar, eu disse para ela: “Você e a Tânia são danadinhas, combinaram e agora estão colocando em prática”. Mas ela mal se lembrava da promessa que havia feito com a amiga na sala de aula, aos 15 anos.”

Robson Lima, 64 anos, aposentado, Florianópolis, SC.

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05/05/2017 - 14:45

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