"Casamos no hospital: foi o último desejo do meu bem"

Willian e Fernanda sempre tiveram o sonho de se casar na igreja, mas, do nada, Fernanda descobriu que tinha um câncer em estágio avançado. Willian ficou viúvo dez dias depois da cerimônia...

Reportagem: Christiane Oliveira / Fotos: Marcelo Motozono

WILLIAN NAGUE, | <i>Crédito: MARCELO MOTOZONO
WILLIAN NAGUE, | Crédito: MARCELO MOTOZONO
Ao contrário do que muitas pessoas pensam, o casamento na igreja não é um sonho apenas das mulheres. Falo isso porque sou um homem que sempre almejou uma união abençoada por Deus. Felizmente, encontrei a Fernanda, uma mulher que desejava isso tanto quanto eu. Só que, quando resolvemos nos casar, apareceram vários empecilhos. Por isso, decidimos apenas nos juntar, mas com a intenção de um dia oficializar nosso matrimônio na igreja, diante de um padre. 

Mas sempre que a gente achava que ia realizar nosso sonho, aparecia um obstáculo. Essa situação se estendeu por 15 anos, até que nossa cerimônia de casamento acabou se tornando uma questão de vida ou morte...

Não tinha dinheiro nem clima para o casamento 

Eu e a Fernanda nos conhecemos oficialmente em 1991, numa festa do clube da cidade do interior onde morávamos. Digo oficialmente porque ela trabalhava numa farmácia conhecida e, sempre que eu ia lá, ficava observando sua beleza. No dia da festa, fiz um convite para tomarmos um sorvete e ela aceitou. Conversamos por horas e fiquei ainda mais encantado. A Fernanda era simpática, humilde, extrovertida... Depois de alguns sorvetes e risadas, demos nosso primeiro beijo. 

Não demorou muito para que começássemos a namorar. Fiz tudo como manda o protocolo. Fui até a casa da família da Fê, conheci seus pais e pedi sua mão em namoro. Confesso que fiquei um pouco nervoso, pois eu era dois anos mais novo – tinha 19 anos e ela 21 – e o pai dela podia achar que eu não queria nada com nada. Mas deu tudo certo!

Nossa relação era muito boa. Sabíamos respeitar o espaço um do outro e, ao mesmo tempo, éramos companheiros. Também compartilhávamos as mesmas vontades, principalmente a de se casar na igreja. A gente tinha tudo planejado.Mas nossa situação financeira não permitia que a gente transformasse nosso desejo em realidade. 

Continuamos namorando por nove anos, até que, em 2000, com muito esforço, conseguimos comprar uma casa para morarmos. Que felicidade! Era o que faltava para nos casarmos. O problema é que a mãe da Fê começou a apresentar problemas de saúde e meu amor teve que largar o emprego para cuidar dela, pois o pai já tinha certa idade. 

Como só eu continuei trabalhando, a gente teve que escolher entre mobiliar a casa ou fazer o casamento dos nossos sonhos. Optamos por comprar os móveis e todos os utensílios, porque não adiantava fazer um festão e não ter nada dentro de casa. Então, no mesmo ano, fomos morar juntos, com o objetivo de juntar dinheiro e fazer nosso casamento na igreja mais pra frente. Mas aí, em 2008, a mãe da Fernanda acabou morrendo. Foi uma tristeza só... 

Então, meu amor decidiu voltar a trabalhar, mas não deu certo, pois precisou levar seu pai para morar com a gente. É que ele sofreu um AVC em 2000 e ficou sem falar e andar. A Fê desistiu de procurar emprego porque ele precisava da atenção dela 24 horas por dia. Mais uma vez, nosso sonho teve que ser adiado, pois não tínhamos dinheiro nem clima para um casamento. 

A Fernanda tinha câncer no pulmão, rim e útero 

Me chateava muito chegar em casa e ver minha mulher tão exausta. Afinal, ela cuidava do pai e de toda a casa. A Fê morria de medo de ficar doente e não conseguir cuidar dele. Mas não teve jeito: em novembro do ano passado, ela começou com uma tosse chata e persistente que logo virou uma falta de ar terrível. 

No dia 16 daquele mês, ela deu entrada no pronto-socorro e, depois de realizar uma radiografia, apareceu uma mancha no seu pulmão. O diagnóstico foi pneumonia. Fernanda ficou internada por quatro dias, tomou alguns medicamentos e recebeu alta. 

Na mesma madrugada em que voltamos para casa, a falta de ar voltou com mais força. Retornamos ao hospital e dessa vez fizeram exames mais aprofundados. Aquela mancha no pulmão era um tumor. O médico veio conversar comigo e disse que não tinha como dizer se era maligno ou benigno antes de fazer uma biópsia. Dez dias depois, o resultado apontou um câncer bem avançado no pulmão. Foi um baque. Fiquei arrasado. 

Não contei pra ela sobre seu verdadeiro estado 

Os médicos também realizaram uma tomografia do abdômen e descobriram que o câncer se alastrou para um rim e para o útero. Eles marcaram uma cirurgia para o dia 14 de dezembro para retirar o tumor do pulmão. 

Decidi não contar nada para a Fernanda. Tinha medo de ela se entregar, entrar em depressão e não resistir. Eu ainda acreditava que ela se recuperaria e voltaria pra casa comigo. Mas, lá no fundo, eu sabia que ela não tinha muitas chances de sobreviver... 

No dia 3 de dezembro, quando abri a porta do quarto, o padre da capela do hospital conversava com ela: “Você tem algum sonho, minha filha?”, ele perguntou. “Sim, padre. Quero me casar na igreja, de noiva!” O padre olhou para mim, perguntou se era da minha vontade e eu disse que sim, que a gente sempre quis isso. “Então vocês se casam amanhã, aqui na capela do hospital!” Ao mesmo tempo que meu coração se encheu de alegria, na minha cabeça percebi que aquele poderia ser o último desejo da Fê. Me aproximei dela e disse: “Viu, meu amor, finalmente vamos oficializar nossa união e ganhar a bênção de Deus!” Ela sorriu e nos abraçamos! 

Não tive que me preocupar com nada. O hospital arcou com todas as despesas. Roupas, maquiagem, decoração, bolo... Então, no dia 4 de dezembro, vi a Fernanda entrando na capela com um lindo vestido de noiva e vindo até mim na cadeira de rodas. Fui tomado por uma emoção tão grande que desabei em lágrimas no altar! 


Ao me casar, acreditei que ela sobreviveria... 

Eu sabia que o estado dela era grave, mas o casamento me deu a esperança de que a Fernanda ia se recuperar e íamos viver felizes para sempre. Foi muito lindo! Nossos familiares estavam lá e presenciaram tudo. Como a Fê estava bem debilitada, contando com auxílio de oxigênio para respirar, precisou voltar para o quarto logo. Mesmo assim, nosso sonho estava realizado. Não arredei o pé do hospital um minuto sequer desde que ela deu entrada – pedi licença do trabalho para dormir com a Fê. A exceção foi quando ela foi entubada e levada para a UTI, no dia 11 de dezembro. Os médicos me chamaram e disseram que o estado dela estava muito crítico e que eu devia me preparar. 

Antes de ser entubada, ela me disse que não queria mais ficar ali e pediu para levá-la pra casa. Aquilo me destruiu... Fui até a capela e entreguei nas mãos de Deus. Roguei que fosse feita a vontade Dele, mas que não queria ver minha esposa sofrer mais. Na madrugada do dia 14, dez dias depois do nosso casamento, a Fernanda partiu. 

Foi muito difícil acreditar que meu amor, minha parceira de 25 anos, tinha me deixado. Graças a Deus, pudemos nos casar e realizar nosso sonho antes que ela se fosse. Nunca contei pra Fê sobre seu verdadeiro estado clínico para poupá-la. Acho que ela sabia da sua condição, mas não demonstrava para me preservar. 

Até hoje, é muito doloroso chegar em casa e não encontrar minha mulher me esperando com um sorriso, não ganhar aquele beijo doce... Fomos marido e mulher perante Deus por dez dias, mas não me arrependo em nenhum momento de ter tomado essa decisão. Mesmo que eu arrume outra pessoa, a Fernanda será minha eterna esposa. - WILLIAN NAGUE, 45 anos, vendedor, Salto, SP

23/03/2016 - 10:07

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