Aprendi a ser egoísta na medida certa

Para agradar os outros, fazia coisas que prejudicavam a mim mesma. Quando parei de deixar que me fizessem de boba, descobri o amor e a amizade

Reportagem Luiza Furquim (com colaboração de Luiza Schiff)

Eu não precisava agradar uma pessoa para ela gostar de mim! | <i>Crédito: Redação Sou Mais Eu
Eu não precisava agradar uma pessoa para ela gostar de mim! | Crédito: Redação Sou Mais Eu
Fui besta dos outros por 30 anos. Pois desde criança achava que as pessoas só gostariam de mim se eu fizesse tudo por elas. Tudo mesmo. Então, eu era motorista de “amigas” interesseiras, sustentava namorados que me traíam e me humilhavam descaradamente...Mas não estou me fazendo de vítima ou coitadinha da história, não! Sei que só abusavam porque eu deixava. E deixava por ser carente. Eu não tentava agradar só para ser legal, mas para sentir que precisavam de mim. Minha necessidade de ser querida era tão grande que quase adoeci. E ainda bem que cheguei a esse ponto, pois assim aprendi a ser egoísta e, quem diria, a me sentir amada e feliz como jamais imaginei. 

Aos 10 anos já montavam em mim 
Essa coisa de precisar agradar os outros a qualquer custa começou quando eu era bem pequena. Eu fazia de tudo para ser querida. Aos 10 anos, quando um grupinho de meninas não queria brincar comigo, eu sentava na calçada com todas as minhas bonecas. Aí, elas vinham. Na adolescência, mantinha um guarda-roupa incrível só para vestir minhas amigas antes da balada. Eu vestia umas quatro meninas, mas nenhuma me chamava para sair, acredita?!

Em troca, só ganhei traições 
Com os homens era pior ainda! Nessas de “tenho que dar para receber”, dei uma calça de R$ 360 para um dos meus namorados logo na primeira semana juntos. Era mais do que o terço do meu salário! Ele era viciado em comprar, tinha o nome sujo na praça e quem pagava tudo era eu, num dos meus três cartões de crédito – afinal, eu precisava de vários para dar conta de distribuir tantos presentinhos. Sabe o que eu ganhei em troca? Um par de chifres. Terminei tudo, claro, mas para você ter ideia: tinha acabado de dar 12 cheques para pagar as rodas novas do carro dele, que custaram quase R$ 4 mil! 
O maluco é que eu continuava sendo boba com os caras. Eles sempre me ligavam com conversinha, dizendo que queriam muito me ver, mas estavam sem grana. Eu resolvia o problema na hora. Até o dinheiro da gasolina saía do meu bolso! Um dia, meu irmão ouviu uma dessas conversas e ficou furioso. “Pera aí que eu vou mostrar como a gente tira dinheiro de mulher”. Ligou para uma menina com quem saía, jogou o mesmo papo que eu tinha acabado de ouvir e ela caiu feito uma pata. “Olha só Kátia, eu posso ir até lá, dou uns beijinhos, encho metade do meu tanque e depois saio com quem eu quiser graças ao dinheiro dela!”
Me senti uma otária, mas não mudei, pois tinha esperança de que, um dia, algum homem veria como eu era de verdade; enxergaria em mim mais do que um carro e um monte de cartões de crédito. Por isso, tanta dedicação da minha parte era uma espécie de teste. Eu oferecia tudo, esperando que alguém recusasse. Mas isso nunca acontecia... Até que em 2004 eu me vi no fundo do poço. 

Era tão estressante viver daquele jeito que arranquei meus cabelos 
Eu já tinha uma filha de 1 ano e estava namorando. No começo da relação, ele dizia que me amava, mas não levei muito tempo para descobrir as traições. Como ele nunca havia trabalhado na vida tinha tempo de sobra pra isso. Fui traída tantas vezes com tantas mulheres diferentes que nem gosto de me lembrar. Com a minha autoestima lá embaixo, eu insistia na relação, pensando que iria conquistá-lo. Nessa época, fiquei tão estressada que comecei a arrancar meu cabelo até ficar careca. Enrolava tufos nos dedos e puxava sem dó. 
Até um dia, no meio de uma discussão, ele mandou: “Você não me ouviu? Eu quero aquele tênis. Você tem que comprar!”. Não era possível que aquilo fosse amor. Mesmo fragilizada e quase em dúvida, pus minha filha no colo e fui embora. Eu tinha 30 anos e naquele instante decidi: nunca mais tentaria comprar o amor de ninguém. 

Virei o jogo com os homens 
Fiquei quase sem amigas, porque já não era a motorista da geral nem emprestava as roupas. Foi duro, mas separei o joio do trigo. Das amigas, sobrou apenas uma, que está do meu lado até hoje. Também passei a ser quem dizia para os caras “estou doida para ver você, mas não tenho dinheiro para ir até aí.”. Fiquei sozinha por um ano, mas persisti nessa tática. Eu queria ver se eles dariam um jeito ou pulariam fora. O único que passou pelo meu teste do dinheiro foi o Matieu. 
Nos conhecemos em um barzinho. Quando ele me chamou para jantar, de cara eu disse que não tinha um tostão. Ele não se importou – e nem é rico. O Matieu nunca me pediu nada. Muito pelo contrário. Uma vez, quis me dar um relógio. Eu não sabia como reagir, pois nunca tinha ganhado presente de homem. Continue tentando fazê-lo entrar em contradição, pegar uma mentira, mas a máscara não caía, pois ele gostava de mim por quem eu era. Estava comprovado: não precisava agradar uma pessoa para ela gostar de mim! 

Parei de sustentar a família
Se eu já tinha melhorado minha postura antes do Matieu, depois dele mudei 100%. É que, mesmo dando um basta nos relacionamentos destrutivos, eu continuava fazendo as vontades da minha família. Eu tinha vários carnes de lojas com compras para parentes. Aí, quando precisei adquirir moveis para a casa onde viveria com o meu amor, não consegui, eu estava cheia de dívidas. O Matieu pagou tudo, mas fez questão de me mostrar como eu estava sendo prejudicada. Aí, começou a segunda fase da minha melhora. Não paguei mais nada para parentada. E o bicho pegou! 
De cara, a minha família disse que o Matieu estava tentando me afastar deles para me dar um golpe. Depois me chamaram de egoísta. E sabe do que mais? Passei a ser egoísta, sim! Isso não significa que eu deixei de pensar nos outros, só comecei a me colocar em primeiro lugar. Se as pessoas não entediam isso, o problema era delas. Pela primeira vez na vida, eu estava bem e me sentia valorizada. 
Ok, eu ainda dou dinheiro para parentes às vezes. Mas agora, isso não me prejudica mais, porque só ajudo quando sei que posso bancar e quando quero independente de eles gostarem de mim. Em 2010 nasceu o nosso filho, O Zayon. Meu filhote está com 7 anos e estamos muito felizes, morando juntos. A sintonia rola solta na minha casa. Eu estou muito feliz e mais madura. Meus interesses vêm antes. Quem quiser que goste de mim assim! 

Katia Tomaz Hostekind, 43 anos, designer, Rio de Janeiro, RJ

DA REDAÇÃO
Egoísmo saudável 
Uma pessoa que faz tudo para ser querida pelos outros pode estar com excesso de carência e baixa autoestima. “É a típica pseudoboazinha”, explica a psicóloga Sueli Castilho. Ou seja, alguém que agrada não por gostar de fazer isso, mas por medo de perder a atenção e o afeto dos outros. Só que o retorno de tanto sacrifício nunca é suficiente, pois, por mais que se faça, não há como obrigar alguém a gostar de você. A solução é pensar mais em si mesma e no seu próprio bem do que nos outros. Ninguém gosta de ser chamada de egoísta, mas essa palavra não é tão ruim assim. O tipo de egoísta mais óbvio é aquele inflexível, que só faz o que quer e não está nem aí para ninguém. Mas existe também um tipo de egoísmo saudável, que leva para a pessoa colocar suas vontades em primeiro lugar. Sim, alguém que se valoriza vai dizer não às vontades dos outros muitas vezes, porém, se tiver flexibilidade para descer de vez em quando, é maravilha! “É preciso saber dosar”, salienta Sueli. O importante é atender ao desejo alheio quando isso também puder ser bom para você. Segundo a psicóloga, é preciso ainda ter segurança para enfrentar as críticas de amigos, parceiros e até da família, pois fique sabendo: quando alguém que aceita tudo decide se rebelar, nem todos irão entender. 
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16/05/2017 - 15:11

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