Aos 55 anos, dei à luz meu neto Arthur!

Quando soube que minha filha não podia engravidar, me ofereci na hora para ser a sua barriga solidária

Reportagem: Thaís Helena Amaral (colaboração: Caroline Cabral)

Meu neto nasceu de mim, fui a barriga voluntária da minha filha! | <i>Crédito: arquivo pessoal
Meu neto nasceu de mim, fui a barriga voluntária da minha filha! | Crédito: arquivo pessoal

Quando tinha 17 anos, minha filha Gleice descobriu que não tinha útero num exame de rotina. “Ela só poderá ter filhos um dia se adotar ou recorrer a uma barriga solidária”, disse o ginecologista, confirmando que ela já tinha nascido sem o órgão. Mas a coitada sonhava em ter uma família! Gleice respondeu na mesma hora que gostaria de fazer as duas coisas: adotar uma criança e gerar um filho no útero de outra pessoa. Sem pensar, prometi que, quando chegasse a hora e se a saúde permitisse, eu geraria o bebê para ela. Agora, essa promessa finalmente se tornou realidade.

A família toda sempre apoiou o gesto de amor

Na minha família, adotar é uma coisa natural. A Daiane, mais velha das minhas três filhas, é adotada. É nossa “filha do coração”, como gostamos de falar. Por isso, em 2010, quando já estava casada, a Gleice resolveu que adotaria uma criança. Foi assim que a Júlia, hoje com 6 anos, virou minha netinha. Que doce de menina!

Mesmo já tendo a Júlia, a Gleice vira e mexe comentava que ainda ia querer que eu gerasse um irmãozinho para ela. Assim como meu marido, meu genro sempre apoiou a ideia de eu ser a barriga solidária. Para falar a verdade, eu não via a hora de ajudar minha menina a realizar esse sonho, mas obviamente tinha que esperar o momento que ela considerasse mais adequado. Mal dá para descrever a alegria que senti quando minha filha ligou no início de 2014 e perguntou se eu ainda queria ser sua barriga solidária. Ora, mas é claro que eu topava!

A única preocupação que veio na minha cabeça foi se meu corpo, na época com 55 anos de idade, ainda estaria apto a gerar um bebê. Por isso, pedi a Gleice que agendasse um check-up completo com os médicos no interior de São Paulo, onde ela morava. Logo marquei minha viagem de Santa Catarina, onde vivo, para a casa dela. Era hora de ver se eu poderia mesmo gerar meu netinho e honrar minha promessa de tantos anos.

O implante do embrião pegou de primeira!

No início de abril do mesmo ano, fiz diversos exames para verificar se meu organismo aguentaria o tranco de uma gestação. Em poucos dias, todos os resultados saíram e os médicos disseram que, apesar dos meus 55 anos, estava com a saúde perfeita e poderia gerar a criança. Que felicidade! Marcamos a primeira tentativa de implante do embrião para maio. A Gleice e seu marido foram até a clínica de reprodução assistida e colheram material para a fertilização. Já eu comecei a tomar vitaminas e um remédio para engrossar a parede do meu útero, que afina com o passar dos anos. Tudo transcorreu na maior tranquilidade, sem nenhum efeito colateral.

No dia da tentativa de implante, o procedimento demorou apenas oito minutos. Não foi necessário anestesia nem jejum e eu fiquei olhando enquanto o médico implantava o embrião no meu útero. Depois, precisei ficar 20 minutos em repouso. Aí, fui liberada para ir embora e levar minha vida normal de todo dia.

Para falar a verdade, a gente achava que o embrião não ia pegar na primeira tentativa. Geralmente, as pessoas fazem duas ou três tentativas até dar certo. Mas não é que comigo pegou logo de cara?! Doze dias depois do procedimento, fiz um exame de sangue e confirmei: estava grávida! Meu marido e minhas filhas ficaram muito felizes e todos ficamos ansiosíssimos para que o bebê chegasse logo.

Como sabia que o filho era dela, nem fiz terapia

Esperei três meses para que a gestação vingasse antes de contar para todo mundo que estava gestando meu neto. Muitas pessoas ficaram comovidas com meu gesto de amor, mas também escutei algumas críticas. Algumas pessoas acharam uma loucura, disseram que eu estava arriscando minha vida sem necessidade. Mas gravidez não é doença e, se minha filha quisesse, faria isso por ela mil vezes!

Como a gestação foi especial, fiz ultrassom de 14 em 14 dias para garantir que estava tudo bem com o bebê. Em agosto, descobrimos que seria um menino e não poderíamos ter ficado mais felizes. Como a Gleice já tinha a Júlia, estava mesmo querendo um guri para formar um casal. O Arthur foi o primeiro menino da família!

Tirando o enjoo matinal que encarei até o sétimo mês, a gravidez foi bem sossegada. Engordei apenas 9 kg porque me cuidei, fazendo caminhada e me alimentando direitinho. Também diminuí a quantidade de café e evitei as bebidas alcoólicas e os chás. Como sempre tive muito claro na minha cabeça que o bebê que estava dentro de mim é meu neto, não precisei fazer o acompanhamento psicológico indicado nessas situações. Mas muitas mulheres que são barrigas solidárias acabam precisando de orientação profissional para que não se apeguem ao bebê durante a gestação nem se esqueçam de que o filho que carregam no ventre não é delas e deverá ser entregue aos verdadeiros pais tão logo nasçam.

Dei à luz, mas minha filha quem amamentou

A cesariana aconteceu no dia 5 de fevereiro de 2015. Eu mal podia esperar pelo grande dia! Fiz até uma contagem regressiva no Facebook. A Gleice e meu genro acompanharam o parto de pertinho. Quando o Arthur nasceu, o médico o mostrou pra mim e eu disse: “Arthur, você chegou, a mamãe está bem ali para te receber!”. Então a Gleice o pegou no colo! Foi lindo, me senti plena, realizada. Ela não poderia tê-lo, mas eu pude proporcionar isso a ela.

Essa foi minha terceira cesariana e, de longe, a recuperação mais rápida que tive. O Arthur nasceu às 7h da manhã, às 11h eu já estava no quarto e logo no dia seguinte tive alta! A Gleice o amamentou por um tempo, pois tomou remédios para produzir leite. Depois, passou a usar o leite receitado pela pediatra como complemento.

Minha paixão no aniversário de 1 aninho!

Não o vejo como filho, ele é o menino da vovó!

Acompanhei o crescimento dele de longe, ele mora em São Paulo e eu em Santa Catarina. Tento passar uma semana com ele a cada dois meses, mas nem sempre é possível. Agora em setembro eles veem me visitar, estou bastante ansiosa pra ver meu menino! E é só me ver que ele gruda, me abraça e não larga até dormir. Não o vejo como filho. O Arthur é meu neto, o menino da vovó! Nossa relação é especial por ele ter saído de mim. Meu terceiro neto nascerá em breve, mas não sei se o sentimento será o mesmo. Nutro um amor protetor por ele que é inegável.

Ele tem um ano e meio, então não sabe da história ainda. Vamos contar em breve e sei que ele vai adorar saber que saiu da barriga da vovó. Muita gente admirou meu gesto, e foi bonito mesmo. Quem me reconhece pelas ruas da cidade faz questão de me abraçar e acaba se emocionando. Minha filha não cansa de dizer que sou sua heroína, que será eternamente grata por eu ter gerado o Arthur! No fim das contas, quem agradece diariamente sou eu, por viver essa história tão cheia de amor!

Nivalda Candioto, 58 anos, vendedora, Criciúma, SC


Da redação

Barriga voluntária precisa ser parente de 1º a 4º grau

Um casal pode recorrer ao útero de substituição quando a mulher apresentar problema de saúde que impeça ou contraindique a gestação ou em casos de união homoafetiva. “O Conselho Federal de Medicina (CFM) determina que o ‘empréstimo’ do útero seja um ato de solidariedade executado por uma mulher da família, sem nenhum caráter lucrativo ou comercial”, explica José Hiran Gallo, coordenador da Câmara Técnica de Reprodução Assistida do CFM. A barriga solidária precisa ter um grau de parentesco de até quarto grau (mãe, irmã, avó, tia ou prima) com algum dos futuros pais e um limite de idade de até 50 anos. Casos especiais são analisados pelos Conselhos Regionais de Medicina. Se a voluntária for casada, seu cônjuge precisa assinar um termo aprovando o ato de solidariedade. O procedimento – que também é oferecido na rede pública de saúde – consiste em criar um embrião a partir do material genético dos pais e implantá-lo no útero “emprestado”. “A gestora recebe um acompanhamento psicológico para garantir que entregará o bebê aos pais genéticos assim que der à luz”, explica. A criança será registrada no nome dos pais e a gestora não detém nenhum direito judicial sobre ele.

24/08/2016 - 19:00

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