Amava tanto meu filho que o deixei partir deste mundo

O tratamento contra o câncer chegou a um ponto que só me restavam duas opções: entubar meu bebê e prolongar seu sofrimento ou permitir que partisse diante dos meus olhos

Reportagem: Luiza Furquim

Eu e o Luiz, na época com 10 aninhos | <i>Crédito: arquivo pessoal
Eu e o Luiz, na época com 10 aninhos | Crédito: arquivo pessoal

Eu não quis o Luiz quando descobri que estava grávida dele, em 2000. Mãe de dois, estava louca para retomar os estudos e tentar salvar meu casamento decadente. Mas a vida tinha outros planos para mim e uma conversa com minha mãe me fez aceitar o bebê que me traria as maiores alegrias - e as maiores tristezas - que já senti. Não vou nem dizer o quanto o Luiz era especial, porque isso não faz diferença. Eu o amava e daria minha vida por ele. Só que não era a minha vida que estava em jogo.

Aos 6 anos, os médicos diagnosticaram um tumor raro no cérebro do Luiz. O câncer não poderia ser retirado com cirurgia, por isso meu filho teria que passar por sessões de rádio e quimioterapia. Foram 68 delas ao longo de cinco anos, entre fases boas e ruins. Só que o câncer foi agressivo demais e o Luiz cansou de lutar. Pouco antes de morrer, me fez jurar que contaria sua história para o mundo. Cumpro aqui a promessa.


Começou com uma carinha torta

Eu tinha acabado de chegar do trabalho (era caixa num mercado) e o Luiz estava brincando na sala. Notei seu rosto meio torto e a fala arrastada. Corri para o pronto-socorro. Disseram que era uma bactéria e que fisioterapia resolveria. Depois de dez dias, meu filho havia piorado. Sentia dores no ouvido, que ficou com pus e cheiro forte, e toda a face esquerda estava paralisada, com o olho estufado.

Fomos encaminhados a outro hospital para meu menino ser examinado por neurologistas. Ele ficou duas semanas internado e, a cada dia, pelo menos um médico entrava no quarto. Assinando um laudo, li: "suspeita clínica: tumor". Os médicos não me falavam nada, só cochichavam entre si. Depois de uma tomografia, o diretor do hospital me chamou.

Entrei numa sala apertada onde havia cinco médicos em pé ao meu redor, todos sérios e de braços cruzados. O diretor começou: "O Luiz está internado há 15 dias...". De tão nervosa, interrompi: "É câncer, não é?". "Sim." Os cinco abaixaram a cabeça. O câncer do Luiz se chamava rabdomiossarcoma e não existia tratamento para ele ali. Um dos médicos quebrou o silêncio: "Mas a medicina se modernizou, vamos confiar". Saí para o corredor que dava para o quarto do Luiz. Quanto mais eu andava, maior ele parecia. Meu peito afundou na parede junto comigo.

O tratamento precisou ser feito em São Paulo, longe de Praia Grande, cidade onde morávamos, no litoral. Ficamos em um hotel. Na clínica de São Paulo, bancada pelo convênio, a médica falou que rádio e quimioterapia eram as únicas chances do Luiz e que, ainda assim, o tumor podia reaparecer. Eu ouvia tudo entorpecida, como se estivesse dentro d’água e os lábios da doutora se mexessem em câmera lenta. Tudo o que queria era estar no lugar do Luiz para ele não sofrer...



Lembro dele se olhando carequinha no espelho

Começamos o tratamento e os vômitos se tornaram diários. Meu pequeno ficou apático e sonolento. A radioterapia queimava a garganta de um jeito que não dava nem para ele beber água. Mesmo assim, ia às sessões de cabeça erguida, sem dizer um "ai". Quando o cabelo começou a cair, às vezes eu o pegava em frente ao espelho, passando a mãozinha pelos cílios e sobrancelhas ralos. Ele era tão vaidoso! Eu ia chorar no banheiro e uma depressão do passado começou a me rondar de novo.

Teria me afundado nos antidepressivos se não fosse meu guerreirinho. Um dia, na clínica, ele viu um menino gritar ao receber uma injeção - as veias ficam muito machucadas pela químio. "Por que você está gritando?", perguntou o Luiz, que estava recebendo a mesma injeção. "Porque dói", disse o outro. Calmo, meu filho respondeu: "Não, o que dói mesmo é tirar líquido da coluna. Se você respirar fundo e deitar de lado, a dor diminui".

A força do Luiz me deixou com vergonha de mim mesma. Um dia, olhei a bancada da cozinha de casa: metade estava cheia com os remédios dele e a outra, com os meus! Decidi: por ele, eu seria maior que a minha dor.

Após 36 sessões, o tumor regrediu. Que alegria voltar com o Luiz para casa e levá-lo à escola. De tão motivada, comecei a faculdade de pedagogia para ajudá-lo nos estudos.


Depois de uma melhora, o baque

Mas nossa felicidade não durou um mês. De repente, o nariz do Luiz começou a sangrar. A voz mudou, como se ele estivesse com uma gripe forte. Voltamos à clínica e a médica viu um caroço na garganta. Era o câncer de novo, dessa vez espalhado pelo corpo. A saída eram 32 novas sessões de rádio e quimioterapia. De segunda a sexta, a primeira pela manhã e a segunda, à tarde.

Foi um baque. Meu menino passava o dia enjoado, não comia, ficou com os dentes sensíveis e careados. Pela primeira vez fraquejou. De tão magro, precisou tomar um remédio dado para aidéticos ganharem peso rápido. Eu o segurava no colo, cantava e fazia carinho. Desenvolvemos uma conexão tão forte que aprendi a perceber quando ele estava escondendo a dor para me proteger e ele parou. A partir de então, se mostrava fraco quando precisava e depois se reerguia com minha ajuda. Novamente o tumor regrediu e, ufa, voltamos para casa. Luiz tinha quase 10 anos.

Vivemos em paz por um ano. Luiz voltou a ser vaidoso, ia à escola e a bailinhos. Acho que 2011 foi uma espécie de desforra para ele. Estava feliz, aprendendo a tabuada e fazendo amigos. Mas passou a reclamar de dores de cabeça e chegou a ser internado com falta de ar e pressão alta. Fizemos novos exames. Nem precisava. Eu já sabia.

O aniversário de 11 anos dele estava próximo e minha ex-sogra sugeriu fazermos a festa dos sonhos do Luiz. "Acho que ele não vai passar a adolescência com a gente", disse. Concordei e... Foi incrível! Quem viu meu filho naquele dia nunca diria que ele tinha só mais cinco meses de vida. Como o moleque dançou! No fim da noite, pediu ao DJ a música (I’ve Had) The Time of My Life (algo como "vivi o melhor da minha vida"). Luiz queria mostrar como tinha sido feliz.



"Mãe, estou cansado. Você me perdoa se eu quiser descansar?"

Em julho de 2011, ele foi internado com graves dores causadas pelos novos tumores. Às vezes, ficava à base de morfina na veia. Pela primeira vez, os médicos não deram esperanças. Explicaram que eu poderia entubar o Luiz e deixá-lo no soro, mas apenas o corpo dele seria nutrido e nem tudo se resolve com alimentação. Estaria, então, apenas prolongando seu sofrimento.

Teria sido difícil decidir entre manter meu filho vivo mais um pouco no hospital e levá-lo para morrer em casa. Mas o próprio Luiz já tinha se decidido. Um dia, com dificuldade para falar, ele me disse: "Mãe, estou cansado. Você me perdoa se eu quiser descansar?". Assim, em 5 de outubro levei meu bebê para casa. Era também um jeito de ficarmos com meus outros filhos, o Haryel, na época com 16 anos, e a Tamires, que tinha seus 15. Eles só viam o irmão de fim de semana - só no último ano de vida do Luiz conviveram mais com ele - e sentiam falta do caçulinha. Aliás, sentem até hoje!


Ele me ensinou a não me perder na vida e a resolver tudo sorrindo!

Luiz ficou estável até 12 de outubro, quando começou a passar longos períodos dormindo. Já não comia ou bebia nem fazia xixi. Três dias depois, ele passou a fazer um ronco estranho, como se tivesse água no pulmão. Eram 22h30. Minha irmã, madrinha dele, foi visitá-lo e pediu: "Você me espera voltar amanhã?". Meu filho fez que não com a cabeça. De tempos em tempos, ele abria um olho e me encarava. Acompanhei a respiração dele ficar cada vez mais fraca até que, por volta das 7 h, não se ouvia mais nada. A enfermeira disse que era hora e retirou a máscara de oxigênio. Luiz deu três suspiros e morreu.

Obrigada, Luiz, por me ensinar a não entregar os pontos e a ser extremamente positiva. Não me perco mais na vida e não há problema que eu não receba sorrindo. Quando você se foi, vi um raio de luz no seu rosto e essa foi a sua mensagem para mim. O sol sempre vai brilhar. Você me ensinou que para tudo na vida há um jeito. Só não para a morte.


Eternizei sua história em um livro

 Meus desabafos foram feitos em forma de texto. Não podia chorar na frente do meu guerreiro, então escrevi tudo que senti. No final da sua vida, Luiz me fez prometer que publicaria a história dele, relatada por mim. Fiquei um bom tempo sem mexer no que escrevi, mas resolvi retomar esse pedido e vou publicar o livro O segundo leito em breve. Você pode acessar as novidades sobre a publicação no meu Facebook.

Analice dos Santos, 38 anos, pedagoga, São Bernardo, SP

05/07/2016 - 14:00

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