"Ajudo mulheres humildes a dar à luz em suas casas"

"Fui tão maltratada ao parir o meu primeiro filho que decidi usar minhas próprias mãos para que nenhuma mulher vivesse aquele trauma. Por isso faço partos humanizados na periferia"

Sou Mais Eu Digital / Foto: Alex Silva

Luciana Lourenço | <i>Crédito: Alex Silva
Luciana Lourenço | Crédito: Alex Silva
Minha mãe me pariu em casa, de cócoras, numa cidade nordestina que nem aparece no mapa. Ainda assim, não sofreu como eu ao dar à luz meu primeiro filho. Tenho lembranças horríveis daquele dia. Mas a vida é genial e a dor me inspirou a encontrar minha missão: fazer partos humanizados em casas da periferia. 

Só pude ver o meu filho 10 horas após ele nascer

Tive o João em 1999, numa clínica particular – os amigos fizeram vaquinha, pois não havia vaga nos hospitais públicos. A violência começou quando não me deixaram ter acompanhante. Precisei tirar toda a roupa, até a aliança, e vestir um avental aberto nas costas.

Depois de 18 horas em trabalho de parto, já estava sentindo a cabeça do meu filho no canal. A médica me mandava fazer força, mas era difícil! Impaciente, ela logo disse que faria uma cesárea, “já que eu não estava ajudando”. 

Sem cerimônia, fui colocada na maca e anestesiada. Meu filho veio ao mundo às 16h05. Tenho poucas lembranças do pós-operatório, mas sei que só pude vê-lo às 2 h da manhã! Quando colocaram aquele menino perto de mim, não consegui sentir nada. Era um desconhecido. Cheguei a duvidar se era meu. 

A enfermeira resolveu, então, que, em pleno inverno, eu precisava de um banho frio! Contra minha vontade, arrancou o esparadrapo da minha barriga sem dó. E ainda disse: “Você não queria um parto normal? Ia doer muito mais do que isso! Por que está chorando agora?”.

Naquele momento, decidi: no que dependesse de mim, nenhuma mulher passaria por momentos tão traumáticos. Eu já era auxiliar de enfermagem e teria que estudar por mais 6 anos para poder fazer partos. Tudo bem, pois eu havia encontrado a minha missão de vida! 

Cansei de ver atrocidades na rede pública 

No mesmo ano fui trabalhar no centro obstétrico de um grande hospital público. Meu papel como auxiliar era injetar ocitocina, a medicação que aumenta o número de contrações. Eu me enxergava em cada mãe que chegava com dor. Então, nessas, só fingia que colocava o remédio. Medicá-las causaria mais sofrimento. Era meu jeito de preservar aquelas mulheres, abandonadas e maltratadas pelo sistema de saúde desumanizado. 

Em 2001, entrei na faculdade de Enfermagem, determinada a me formar e a emendar uma pós em enfermagem obstétrica. Logo no primeiro semestre engravidei do meu segundo filho. Fiquei feliz, mas a ideia de reviver aqueles momentos do primeiro parto me aterrorizava. No dia do nascimento, felizmente pude contar com uma boa equipe do hospital no qual trabalhava. Denilson ficou na sala e o meu bebê não foi arrancado de mim. Tudo foi mais leve. Foi assim também anos depois, na cesárea do meu terceiro menino. 

Bancar meus estudos e ajudar Denilson, que é professor, nas contas da casa não foi fácil. Além de trabalhar em dois hospitais, vendia trufas, pães de mel e marmitas. Mas valeu: em 2006, chorei de alegria ao me formar! No ano seguinte, já engatei a pós. Em 2008, quase 10 anos após o primeiro parto traumático, eu era oficialmente uma enfermeira obstetra! 

Atuei na área obstétrica da rede pública por 15 anos. Imagine quanto abuso e violência eu não vi por lá! Médicos que dizem “na hora de fazer não gritou” para mães que uivam de dor são o menor dos problemas. 

Já vi uma mulher morrer por uma manobra médica desnecessária e ultrapassada, conhecida como Kristeller. É uma pressão aplicada pelo médico, com os braços, na parte superior do útero para facilitar a saída da criança. Ele a fez com tanta brutalidade que o fígado da mãe rompeu e ela não resistiu, embora o bebê tenha nascido bem. 

Também vi mulheres perderem filhos dentro do ambiente hospitalar. O motivo? Doutores que se recusaram a fazer cesáreas quando eram necessárias. A episiotomia é o corte de bisturi que rasga três camadas de pele na vagina. Este corte deve ser feito apenas em casos extremos para facilitar a saída do bebê no parto normal. Presenciei um parto onde o médico abriu dois cortes na mesma mulher, um de cada lado! A dor disso no pós-parto é absurda... A recuperação demora mais do que a da cesárea, comprometendo a vida sexual da mulher. 


Fiz o primeiro parto em casa e nunca mais parei

Essas e outras histórias me tiravam o sono. Aquelas mulheres eram tratadas como bichos, eu não podia aceitar! Todas nós temos o direito de sermos tratadas humanamente. Ou só quem tem dinheiro pode ter um parto lindo na banheira? Não mesmo! 

Em 2011, uma antiga professora e amiga querida, a Ivanilde, me convidou para acompanhar uma mulher que queria ter o segundo filho em casa. Participei dos três encontros delas (abaixo eu explico melhor o que é isso). 

Quando esta mãe entrou em trabalho de parto, a Ivanilde estava fora do estado e pediu que eu assumisse. Fiquei bem receosa, mas topei. O bebê nasceu tranquilamente na cama dela! 

Uma hora após o parto, a mãe estava dormindo, serena, com o filhote do lado. Vi aquela cena e decidi que queria proporcionar mais momentos assim. Acostumada com o trato dos hospitais públicos, onde mulheres levam dias para receber alta e só têm contato com o bebê horas depois do nascimento, me emocionei com a rápida recuperação daquela paciente. Satisfeita, ela passou a me indicar para as amigas gestantes. 

Comecei a agendar várias visitas até que, este ano, saí da área hospitalar e passei a fazer apenas partos em casa. Cobro de R$ 3 mil a R$ 4 mil por parto, mas o valor depende da realidade de cada família. Já recebi até em 10 vezes! 

O parto humanizado ainda é elitizado. Mas tento mudar isso todos os dias, atendendo somente mulheres da periferia. Já peguei bebê no chuveiro, no sofá e até com a mãe em pé na porta! Onde ela vai parir pouco importa, só preciso que a casa esteja limpa e tenha uma cama. 

O fundamental é que a mulher tenha feito o pré-natal direitinho e seja uma paciente de baixo risco, em perfeito estado de saúde. Faço três consultas com ela (são os “encontros”), para criar vínculos e ter certeza de que é apta a dar à luz no lar. 

Elas me acionam quando entram em trabalho de parto. Saio de casa com tudo que é necessário para o parto ser o mais seguro possível. Além da banheira inflável, carrego medicamentos para emergências e até oxigênio! A mãe tem quase tudo o que teria no ambiente hospitalar. 

A mulher é quem faz o parto, eu apenas assisto!

Nascer é natural e não precisa ser traumático. As parteiras facilitam o nascimento, mas quem faz o parto é a mulher! Instrumento de Deus que sou, apenas assisto tudo, como um guarda-vidas que fica sentado na praia vendo as pessoas nadarem. Essa é a minha função. Muitas vezes a mulher precisa apenas de um abraço para parir em paz. A gente não sabe as histórias que ela traz naquela barriga. Ela precisa de carinho, acolhimento e respeito: ao tempo dela e ao do bebê. - LUCIANA LOURENÇO, 38 anos, enfermeira obstetra, Tupã, SP

“Toda mulher merece ter essa experiência!”
Há 15 anos, vivi uma tragédia: meu primeiro filho, Mateus, faleceu de causa desconhecida 11 horas após nascer por parto normal. Só fui me recuperar quando tive Pedro (em 2002) e a Maria (em 2008), ambos por cesárea. Eu mal senti dor nos partos, mas a recuperação foi dureza. Ano passado engravidei do João Paulo e, decidida a não sofrer mais com pós-operatório e a frieza hospitalar, decidi ter o bebê em casa – mesmo ciente de que um parto normal não era recomendado após duas cesáreas. Se meu primeiro bebê nasceu e morreu no hospital, onde deveria estar seguro, ter um fi lho no aconchego do meu lar não seria problema. Conheci a Lu por amigas e ela me passou muita confiança. Em outubro, meu menino nasceu em casa, na banheira! Foi um momento lindo, cheio de amor e respeito. Ele sequer chorou e eu fui a primeira a pegá-lo no colo! Minutos depois eu já estava caminhando. Este nascimento foi o renascimento da minha família. O parto humanizado nos curou dos traumas anteriores. É uma experiência única que toda mulher merece ter! - JEANE CARMO, 33 anos, auxiliar de enfermagem, mãe do JP


O que dizem os médicos?

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o Brasil é recordista em cesarianas desnecessárias. Cerca de 53% das nossas crianças nascem por intervenção cirúrgica – a taxa recomendada pela OMS é de 15%. A cesárea requer o corte de sete camadas de pele, o que pode resultar em infecções e outras complicações. Embora a mulher não sinta nada durante a cirurgia, o pós-operatório costuma ser lento e dolorido. 

A obstetra Ana Cristina Duarte define o parto humanizado como “aquele em que se respeita o tempo da mãe e do bebê, podendo ser realizado em casa ou no hospital”. Para ter um parto domiciliar a mulher precisa ser paciente de baixo risco, condição atestada durante o pré-natal. Para Ana, o principal ganho deste tipo de parto é não se submeter a uma cirurgia. “O parto normal é previsto pela natureza; quando humanizado ele é feito com respeito. A mãe e o bebê se sentem melhor”, avalia. 

Já para o médico obstetra Eduardo Cordioli, da Associação de Obstetrícia e Ginecologia de SP (Sogesp), “fazer um parto em casa é totalmente inadequado e inseguro”. Mas reconhece o abuso no número de cesáreas eletivas – agendadas antes de começar o trabalho de parto. “Devemos diminuí-las, pois muitas vezes elas levam o bebê para a UTI”, diz. “Mas o ideal é dar à luz no hospital com a humanização: sem intervenções desnecessárias, deixando o parto ocorrer da forma mais natural possível”. Ana defende a ideia de que a cesárea dever ser exceção. “Em muitos casos ela é indicada, como quando há placenta prévia”, explica, citando que para cada bebê que nasce em casa (0,1%), cerca de mil nascem em cesáreas de pura conveniência.





10/07/2015 - 11:00

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